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Quem é a Jordanna?

Sou médica, trabalho com ultrassonografia obstétrica e medicina fetal, mas essa é só uma parte da história. O jeito como eu enxergo hoje a gestação foi sendo construído aos poucos, muito mais pela vida real do que por um plano bem organizado.

Dra. Jordanna Leão sorrindo, de jaleco branco

EU NÃO CHEGUEI AQUI EM LINHA RETA

Primeiro eu fui médica. Depois, virei paciente.

Logo depois de me formar, eu achava que sabia mais ou menos como minha vida seguiria. Então veio um acidente grave. Vieram internações, mais de vinte cirurgias, a perda de um rim e um corpo que precisou reaprender muita coisa.

Ser paciente mudou profundamente a médica que eu estava me tornando. Eu conheci de perto a insegurança, a dor, a espera e a necessidade de que alguém explique, com calma, o que está acontecendo.

Talvez tenha sido aí que eu comecei a gostar tanto de explicar. Às vezes, uma informação simples, dita na hora certa, muda completamente a forma como a gente atravessa um momento difícil.

QUANDO EU VIREI MÃE

O conhecimento médico ganhou outro peso.

Quando engravidei, tudo aquilo que eu já sabia sobre gestação deixou de ser apenas conhecimento clínico. Agora era o meu filho. E eu queria entender o que, dentro do que era modificável, eu podia fazer melhor.

Foi nessa época que mergulhei ainda mais em alimentação, metabolismo, hábitos de vida e desenvolvimento fetal. Depois vieram a Nutrigenômica e a Nutrigenética, os cursos para gestantes, a escrita do livro Nutrição na Gravidez faz Diferença! e, mais tarde, a plataforma Gravidez Iluminada.

Eu sempre gostei muito de estudar, mas percebi que gostava tanto quanto de traduzir aquilo para uma linguagem simples. Muitas vezes uma paciente me fazia uma pergunta no consultório e eu saía dali querendo ler mais sobre o assunto. Foi assim, pergunta por pergunta, que esse caminho foi ficando maior.

Um momento em família
Uma lembrança da vida em família

Foi dentro da família que muitas das perguntas que eu estudava deixaram de ser apenas teoria e ganharam rosto, rotina, afeto e responsabilidade.

QUANDO A MARIA VITÓRIA CHEGOU

A pergunta entrou dentro da minha casa.

Anos depois, nossa família viveu outra experiência que mexeu profundamente comigo: a adoção da Maria Vitória, quando ela tinha 15 anos. A Maria Vitória tem síndrome de Down e chegou até nós em uma situação de grande vulnerabilidade, com muitas dificuldades de comunicação, vínculo, organização e adaptação à rotina.

Os primeiros meses foram muito desafiadores. Não havia nenhuma promessa de que as coisas seriam fáceis e nem garantia de até onde ela conseguiria avançar. O que nós podíamos fazer era oferecer presença, estrutura, rotina, estímulo, alimentação, afeto e uma família que permanecesse.

E as mudanças foram acontecendo devagar. Ela passou a se comunicar melhor, começou a escrever, a pintar, a interagir de outra forma e a se organizar dentro da vida da família. Ver essa transformação de tão perto foi uma alegria enorme, mas também reacendeu em mim uma pergunta.

Se o ambiente pode produzir mudanças tão importantes em alguém que já chegou até nós com uma história inteira vivida, quanto do ambiente importa durante a formação de uma criança?

Essa experiência não prova uma hipótese científica. Mas ela tornou a pergunta ainda mais impossível de ignorar.

Um registro espontâneo com as crianças da família

FÉ, TEOLOGIA E FAMÍLIA

Minha fé também faz parte desse olhar.

Eu sou cristã e, ao longo dos últimos anos, senti necessidade de estudar teologia de forma mais séria. Fiz a formação em Teologia — Doutrina e Devoção, pela Escola Convergência, e também passei pela Escola de Pregadores. Estudar a Bíblia de forma mais profunda foi organizando perguntas que eu já carregava sobre família, propósito, educação e formação dos filhos.

Isso também faz parte da minha rotina. Sou professora da Escola Bíblica Dominical na Igreja Presbiteriana da Vila Operária e tenho um grupo de mulheres chamado Mulheres Edificadoras do Lar. Gosto muito de conversar sobre como aquilo em que acreditamos aparece dentro de casa, na maneira como tratamos as pessoas, educamos os filhos, construímos hábitos e organizamos a família.

Como médica, eu sei que um dos objetivos centrais do pré-natal é proteger a saúde da mãe e do bebê. Como mãe, cristã e teóloga, porém, eu não consigo encerrar a pergunta aí. Para mim, a gravidez também é um tempo de preparar a família que vai receber essa criança.

Eu penso muito na imagem da flecha. Não basta lançá-la. É preciso afiar a flecha, preparar o arco e saber em que direção queremos apontar. Na prática, isso significa pensar no corpo que está sendo formado, mas também na casa para onde esse bebê vai chegar, na alimentação, nos hábitos, na cultura da família, no que vamos ensinar, no modo como vamos amar, corrigir e educar.

Quando eu falo em gerar filhos mais saudáveis e mais inteligentes, não estou falando em prometer um resultado ou fabricar um tipo de criança. Estou falando em criar, dentro do que é possível e modificável, condições para que cada bebê desenvolva bem o corpo e o cérebro que está formando e chegue a uma família mais preparada para recebê-lo.

E, na minha convicção cristã, preparo também é caráter. É formar pais que saibam ensinar amor, verdade, sabedoria, responsabilidade e serviço — e que desejem que os filhos cresçam cada vez mais parecidos com Deus.

Esta é a minha cosmovisão cristã. Ela faz parte de quem eu sou e da maneira como penso a família, mas eu faço questão de não apresentá-la como conclusão científica do Projeto Gênesis. No Gênesis, aquilo que é hipótese precisa ser testado e aquilo que é fé precisa ser chamado de fé.

Foto da família reunida

No fim, grande parte do que eu estudo volta para a mesma pergunta: que ambiente estamos construindo para receber, formar e amar uma criança?

E ENTÃO VIERAM AS DÚVIDAS

Observar não era mais suficiente para mim.

Ao longo dos anos, eu acompanhava gestantes que mudavam alimentação, rotina e hábitos e, muitas vezes, observava bons resultados. É claro que isso chama atenção. Mas um dia comecei a me fazer perguntas mais desconfortáveis.

Será que aquilo realmente estava relacionado às mudanças? Será que eu estava vendo um grupo naturalmente mais motivado? Será que mulheres com outras realidades teriam os mesmos resultados? Será que aquilo se repetiria em uma população maior?

Foi aí que eu entendi uma coisa importante: experiência clínica pode levantar uma boa pergunta, mas não consegue respondê-la sozinha. O Projeto Gênesis nasceu dessa inquietação.

“Mais do que descobrir se aquilo em que eu acreditava estava certo, eu queria saber a verdade.”

Ler como nasceu o Gênesis

ONDE EU ESTOU HOJE

Eu continuo sendo aluna.

Hoje faço pós-graduação em Medicina Fetal e continuo sendo aluna. Quero fazer mestrado, aprender metodologia científica melhor e continuar perto de pessoas que questionem minhas ideias e me ensinem.

Eu não tenho pressa de chegar a uma frase pronta sobre como o pré-natal deveria ser.

Se eu precisar passar muitos anos estudando essa pergunta, para mim já vale a pena.

A PARTE FORMAL DA HISTÓRIA

Minha formação foi acontecendo assim.

Não foi uma sequência perfeita de títulos. Foi uma história de mudanças de rota, perguntas novas e estudo contínuo.

  1. 2009

    Graduação em Medicina

    Universidade Iguaçu (UNIG)

    Eu me formei médica em 2009, cheia de planos sobre o caminho que seguiria depois.

  2. 2010

    O acidente mudou a rota

    Vida pessoal e profissional

    Pouco depois da formatura, sofri o acidente que mudou profundamente minha vida. A partir dali, precisei reorganizar o corpo, a rotina, o trabalho e também a forma como eu estudaria.

  3. 2012

    A ultrassonografia virou paixão

    Fértile Diagnósticos

    A formação em ultrassonografia em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Interna abriu um caminho que foi ficando cada vez mais importante para mim.

  4. 2015

    Nascimento do Henrique e início dos estudos em Nutrologia

    Maternidade · ABRAN

    Em 2015 nasceu o Henrique. A maternidade mudou o peso das perguntas que eu já fazia como médica e foi também nesse período que comecei a aprofundar meus estudos em Nutrologia, buscando entender melhor alimentação, metabolismo e formação fetal.

  5. 2016

    Residência em Ginecologia e Obstetrícia e início das aulas para gestantes

    Formação médica e educação em saúde

    Em 2016, iniciei residência em Ginecologia e Obstetrícia. Uma questão de saúde me obrigou a interromper aquele caminho. Parei a residência, mas não parei de estudar. Foi também nesse período que comecei a dar aulas para gestantes, transformando em conversa e orientação prática aquilo que eu vinha aprendendo.

  6. 2017–2019

    Mais profundidade em imagem e medicina fetal

    Cetrus · Ultraeduc · Fértile · ISUOG

    Vieram Doppler, ecocardiografia fetal, morfologia do primeiro trimestre, congressos e atualização internacional. Quanto mais eu aprendia, mais percebia o quanto ainda queria aprender.

  7. 2020–2021

    Nutrigenômica, educação e escrita

    Unyleya · educação em saúde

    Concluí a especialização em Nutrigenômica e Nutrigenética e continuei organizando cursos e materiais para gestantes.

  8. 2022

    Lançamento de Nutrição na Gravidez faz Diferença!

    Giostri Editora

    Em 2022, publiquei o livro Nutrição na Gravidez faz Diferença!, reunindo em forma de livro parte do caminho que eu vinha construindo entre gestação, alimentação, hábitos de vida e educação em saúde.

  9. 2022

    Gravidez Iluminada e mudança para Porangatu

    Saúde digital · mudança de vida

    Em 2022, a Gravidez Iluminada ganhou uma nova etapa como plataforma de educação para gestantes. Foi também o ano em que me mudei para Porangatu por questões de saúde, reorganizando mais uma vez a vida, o trabalho e os projetos.

  10. 2022

    Comecei também a ensinar profissionais

    Instituto Fazendo a Diferença · Ângela Sirino

    Atuei como docente em Saúde da Mulher e Sexualidade, trabalhando temas como anatomia e fisiologia feminina, gestação, saúde reprodutiva, climatério e menopausa.

  11. 2023

    Lançamento de Resignação não é acomodação

    Livro autoral

    Em 2023, lancei Resignação não é acomodação, um livro mais pessoal, em que organizei reflexões sobre escolhas, propósito, fé, amadurecimento e a forma como eu vinha aprendendo a olhar para a vida.

  12. 2023–2025

    Teologia entrou formalmente na minha formação

    Escola Convergência

    Fiz a formação Teologia — Doutrina e Devoção. Para mim, medicina, família, educação e fé nunca foram caminhos completamente separados.

  13. Jan/2025

    Adoção da minha segunda filha

    Família · desenvolvimento · reaprendizado

    Em janeiro de 2025, adotei minha segunda filha, Maria Vitória. Com a chegada dela, precisei reaprender muita coisa sobre desenvolvimento, vínculo, rotina, estímulo e cuidado. Passei a olhar ainda mais de perto para a pergunta de como criar um ambiente que ajude cada criança a desenvolver ao máximo as suas potencialidades.

  14. 2025

    Transformando o Pré-Natal

    Educação permanente em saúde

    Ministrei um curso para profissionais médicos e de enfermagem de Porangatu. Foi uma forma de começar a dividir esse incômodo com a maneira como o pré-natal pode ser pensado.

  15. 2026–

    Medicina Fetal, tecnologia e pesquisa

    Cetrus · Medicina Fetal Eficiente · Projeto Gênesis

    Hoje sigo em formação em Medicina Fetal, desenvolvendo ferramentas para a prática médica e preparando o Projeto Gênesis para uma etapa acadêmica maior. Quero fazer mestrado.

No fim, o mais importante não é o que eu estudei, o que escrevi ou as aulas que dei.

Tudo isso faz parte da caminhada. Mas não é o que melhor explica por que eu continuo voltando para os livros, para os cursos e para cada gestante que entra na minha sala.

J

Eu me importo com cada vida que está chegando.